Julho 10, 2009

A Verdadeira Cidadania (4)

A Pale Blue Dot foi inspirado numa imagem captada, por sugestão de Carl Sagan, pelo maior de todos os viajantes humanos: a sonda Voyager 1, a 14 de Fevereiro de 1990.
À medida que a Voyager se afastava da nossa vizinhança planetária a caminho dos limites frios e desconhecidos do sistema solar, os engenheiros fizeram-ma virar para um derradeiro olhar ao nosso planeta. A Voyager 1 encontrava-se a 6.4 biliões de kilómetros quando captou uma imagem da Terra, que correu mundo.
Posicionada entre finos raios luminosos da nossa estrela, o Sol, a Terra aparece nessa imagem como um frágil ponto de luz, perdido algures como mais uma passagem, assustadoramente insignificante, na imensa e incompreensível fuga cósmica.
Sagan, então, visionário, génio, e sonhador que era, para quem a astronomia era acima de tudo uma experiência de construção do carácter e da humildade, própria dos seres superiores, escreveu, em 1994, umas palavras memoráveis e que foram, para quem não sabe, precursoras - como, aliás, foi tudo em Sagan -, daquilo que hoje tão em voga está e que as grandes massas e muitos ignorantes enchem a boca e reproduzem sobre o aquecimento global e o efeito de estufa:
Look again at that dot. That's here. That's home. That's us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every "superstar," every "supreme leader," every saint and sinner in the history of our species lived there--on a mote of dust suspended in a sunbeam.
O resultado foi o video que se segue. Um ponto para a eternidade: a pale blue dot (com a voz do próprio Sagan e memorável música de Vangelis, a mesma da série Cosmos):
Depois dele ... fácil é ter um laivo da compreensão da nossa insignificância e iniciar a maior de todas as demandas, a visão última de Carl Sagan, que um dia, como todas as outras que teve, será uma realidade: a vida e inteligência extraterrestre. O grande relato dos viajantes.

Junho 29, 2009

A Verdadeira Cidadania (3)

Carl Sagan era um idealista, um visionário e um sonhador. Talvez o último grande humanista, o derradeiro da linhagem do espírito grego. Perseguiu as suas paixões ao longo da vida, como a que nutria pelo planeta Marte, e os seus sonhos, como aquele que foi o maior de todos, aquele que nos continua a afligir e a apaixonar, e que Sagan dizia ser o mais significativo, a busca essencial e a tarefa mais bela e relevante da história humana: a procura de vida e inteligência além da Terra, que retratou no romance "Contacto", adaptado ao cinema por Robert Zemeckis, onde Jodie Foster, o alter-ego de Sagan, escuta os sinais vindos do espaço (SETI). Embora não tenha vivido para poder ver realizado esse que foi o maior de todos os seus sonhos (e quando se realizará???), Carl ainda pôde ver alguns deles concretizados. Outros deixou-os como legado às gerações futuras, em quem depositava toda a confiança e esperança.
Quando me lembro da série televisiva Cosmos e dos seus livros e escritos não posso deixar de regozijar-me e agradecer, não sei bem a quê ou a quem, o privilégio de ter existido nesta época e compartilhar da existência de um ser humano como Carl Sagan. Com ele vamos através da poeira interestelar pelas vozes da fuga cósmica, detemo-nos, como Mark Twain, deitados na relva, nas noites de verão, a perscutar a estrelas, sentimos um arrepio ao escutar a música que John Williams compôs para ET ou os acordes de Vangelis para as primeiras e eternas imagens de Cosmos; com Sagan somos levados a ter uma fé inabalável no percurso da humanidade e a empreender a busca dos princípios fundamentais.
Sagan ensinou-nos a relativizar o mundo e as coisas, a ir mais além do que devemos ir e a acreditar no que se manifesta por detrás do que aparece oculto. Carl Sagan conduz-nos numa viagem primordial pela história humana e pela evolução do Universo e aponta-nos, como uma luz última, tal o dedo reluzente do pequeno ET a tocar-nos a testa, os mundos para além da Terra e as vidas que atravessam a poeira do tempo e do espaço.
Com Sagan regressamos a um mundo antigo e essencial, e à infância protegida em que nos debruçávamos no parapeito para ouvir a música das estrelas e sentir os mundos que gravitam dentro e fora de nós, como uma grande enciclopédia galáctica. Conhecer Carl Sagan é compreender que o nosso mundo nunca mais será o mesmo. É empreender o maior de todos os mistérios e iniciar a maior de todas as viagens
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Junho 17, 2009

A Verdadeira Cidadania (2)

Vivíamos, então, uma época maravilhosa, em que o entendimento das questões essenciais que afligem o ser humano desde as origens, como a vida e a morte, a origem das espécies e da vida na Terra, e a exploração do Universo, começava a ser vislumbrada através do tênue feixe de luz que a frágil lanterna da ciência consegue lançar sobre a nossa ignorância. Poucos conseguiam ter consciência dessas maravilhas e desse privilégio, contemplar esse momento único, regozijar-se de pertencer a tal momento da nossa fugaz existência no pano de fundo do oceano cósmico. Um desses raros homens foi Carl Sagan. Ninguém se esforçou mais do que ele para mostrar a todos nós a importância fundamental de tornar acessível a toda a espécie humana a posse dessa ténue luz da ciência. Ninguém como Sagan teve a coragem e a iniciativa de colocar à prova o pensamento científico, sem preconceitos, sem soberba e sem arrogância. Sagan ensinou-nos a intricada simplicidade das coisas e a relatividade de tudo. Ensinou-nos a modéstia, atributo próprio, como dizia, de quem se dedica ao estudo da astronomia, pois mais tarde ou cedo chegará a perceber o quanto finitos e incompletos nós somos. Com ele aprendemos a saber que a inteligência, a dignidade e a superioridade de cada um de nós está naquilo que aparentemente não se vê, mas no que se sente e busca para lá de todas as fronteiras, acima dos espíritos comezinhos e limitados. Podemos lembrar Sagan por ter sido um cientista e um astrônomo de renome internacional, pela sua participação em alguns dos mais importantes projetos da NASA como o das primeiras sondas Viking para Marte e Voyager para Júpiter (nos anos 70) e pela sua constante aparição nos meios de comunicação social e nas conferências da mais elevada comunidade científica do planeta. Mas certamente, para os que conhecem, ainda que superficialmente, a sua obra, as suas idéias e os seus ideais, Carl Sagan será sempre lembrado como um ser humano especial, com uma visão de mundo muito particular, demasiado vasta para o comum dos mortais, profundamente essencial e sentimentalmente poética. A ciência era sua musa inspiradora e falar da ciência era sua poesia. Sagan inspirou-nos a todos, num ou noutro sentido, na busca das questões fundamentais e verdadeiramente importantes. Soubémos com ele a não nos limitarmos a este mundo, mas a olhar as coisas na sua perspectiva mais profunda e verdadeira, com a consciência da nossa insignificância, com a elevação do nosso carácter.

Junho 05, 2009

A Verdadeira Cidadania

No princípio dos anos 80, o mundo, a sociedade e as nossas vidas eram muito diferentes do que são hoje. Tão diferentes como a idade que temos agora. Quando eu tinha 14, 15 e 17 anos despertei para um mundo fascinante, distante e único, tão próximo daquilo que nos funda e eterniza, enquanto outros, da minha geração, se envolviam com outras coisas mais terrenas e acessíveis. Nesse tempo, já lá vão mais de 20 anos, apareceu na tv portuguesa uma série de divulgação científica, cuja produção era considerada a mais avançada da época. Essa série chamava-se Cosmos. Eram 13 episódios, apresentados, já não me lembro a que dias da semana, na rtp1. A série teve origem no livro do mesmo nome, cujo autor, um cidadão norte-americano, aí dos seus 50 anos, era-o também de outras obras. Nesse tempo, quando eu comecei a ver devotamente o Cosmos e a ler os os livros e artigos desse Senhor, eu fui conduzido a um outro mundo e a uma outra dimensão, mágica, que me formou enquanto pessoa, intelectual e moralmente, e influenciou toda a minha vida futura. E como a mim - viria a sabê-lo mais tarde - o mesmo sucedeu a dezenas de jovens portugueses da altura e a milhares de outros jovens e adultos espalhados pelo planeta; hoje, a milhões. Esse cidadão norte-americano, esse Senhor que nos entrava pela casa adentro, com o seu blazer de bombazine beije e camisola de gola alta côr de vinho, e uma voz firme e apaixonada, quase em transe, a falar-nos de tudo o que existe, existiu ou existirá, que me prendia horas a fio na leitura dos seus livros belíssimos, e que me fez, inclusive, endereçar-lhe cartas para Pasadena, na Califórnia, ser um dos primeiros membros portugueses da Planetary Society e sonhar em poder um dia trabalhar no Rádio-Telescópio de Arecibo, no Novo México, de auscultadores na cabeça a tentar captar, noite dentro, no silêncio do deserto, possíveis padrões de sinais de rádio vindos algures da galáxia, esse homem que transformou a inteligência, a compreensão, o carácter e a sensibilidade de tantos e tantos de nós naquele tempo chamava-se Carl Sagan. “A espécie humana precisará crescer muito, deixar sua infância para trás. Talvez os nossos descendentes nesses tempos remotos olhem para trás, para a longa e errante jornada empreendida pela raça humana a partir das suas obscuras origens no distante planeta Terra, e, embrando as nossas histórias pessoais e colectivas, o nosso romance com a Ciência e a Religião, tenham uma visão plena de clareza, compreensão e amor." Carl Sagan (09/11/1934 – 20/12/1996)

Maio 16, 2009

Moleskine (12)

«Partidas horríveis na semiclaridade, antes da alvorada. Tremura da alma e da carne. Vertigem. Busca do que seria ainda possível levar. Que te agrada tanto nas partidas, Ménalque? Ele respondeu: - O antegosto da morte.
Não se trata tanto de ir ver outra coisa, mas mais de me separar do que não me é indispensável. Ah, quantas coisas teríamos podido ainda dispensar, Nathanael! Almas nunca suficientemente despojadas para serem finalmente cheias de amor - amor, espera e esperança, as nossas únicas verdadeiras posses.
Todos estes sítios onde teríamos podido viver! Sítios onde a felicidade abundaria. Quintas laboriosas, labutas inestimáveis dos campos; cansaço, imensa serenidade do sono ...
Partamos! E paremos apenas em qualquer sítio, ao acaso ...!»
(André Gide, Les Nourritures Terrestres)

Abril 28, 2009

Moleskine (11)

« Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.»
(Italo Calvino, Le Città Invisibili)

Abril 08, 2009

Breviário Mediterrânico: (5)

O Mediterrâneo pode pois tornar-se uma biografia, um interminável palimpsesto, um movimento que toma conta de nós e nos conduz para lugares incertos, aonde somos acompanhados por gaivotas solitárias, nas quais veremos notícias de uma esperança ou de desastres, com o Mediterrâneo estendendo-se a toda a volta cada vez mais branco.
Depois, daí para a frente, quanto mais conhecemos mais nos perdemos. Então, como qualquer memória, lugar ou visitação, e nos momentos em que um lado luminoso nos esquece em direcção a um outro que registámos na nossa consciência, o Mediterrâneo adquire para nós e para todos os que nele viveram e morreram o carácter de uma deriva contínua, de uma metáfora. E se quisermos, porque a tal iriam ter, mais tarde ou cedo, os seguimentos que poderíamos sugerir para a linha seguinte, pela qual seríamos conduzidos ao princípio ou ao fim, consoante a perspectiva ou o momento: também o carácter de um destino, tantas vezes associado a um ponto cardeal ou a uma latitude no horizonte:
«A gente do Norte assimila muitas vezes Sul e Mediterrâneo: qualquer coisa a atrai para ele, mesmo quando permanece apegada à sua terra natal. Mais que a simples necessidade de um sol quente e de uma luz mais viva. Não sei se é permitido qualificar isto de «fé no Sul». É possível uma pessoa, independentemente do lugar onde nasceu e onde vive, tornar-se mediterrânica. A mediterraneidade não se herca, adquire-se. É uma distinção, não uma vantagem. Não se trata apenas de história ou de tradições, de geografia ou de raízes, de memória ou de crenças: o Mediterrâneo é também um destino

Março 05, 2009

Breviário Mediterrânico (4)

Predrag Matvejevitch, o geógrafo, o historiador, o narrador, o poeta, por vezes deixa de lá estar. Deixa-nos sós, parte por cima das areias que se estendem das praias do Norte de África à Córsega e reaparece subitamente nos rochedos isolados do mar e na Républica da Ragusa ou em Veneza. Enquanto nos deixa sós, deixa-nos com tudo o que é imenso em tão pouco. Deixa-nos com cada palavra e frase, com cada voz que repete até à exaustão a aventura mediterrânica. Não podemos pretender mais. Predrag encarna a própria cor e ondulação do mediterrâneo, que, como ele mesmo refere, têm a sua natureza e consistências próprias consoante cada corrente ou ponto indefinido do mar. Temos a sensação de que abandona os navios e as embarcações, as cidades e dos territórios marcados para se retirar para os faróis, de onde nos envia notícias e relatos de uma espécie de desaparecimento. Matvejevitch torna-se um viajante em todos os sentidos, mesmo que um deles o seja apenas à roda do seu quarto. Magris assentua, na sua Introdução (Para uma Filologia do Mar): «Ao lermos este breviário temos por vezes a impressão de que aquele que fala é um desses homens mencionados no próprio livro, que viveram diante do mar, guardando faróis e realizando dicionários de marinharia. Mas hoje em dia todo o verdadeiro Ulisses deve vestir, além da sua blusa do marinheiro, um roupão, como ainda não há muito escrevia Giorgio Bergamini, e aventurar-se pelas sua biblioteca dentro, tanto ou até mais que por entre as ilhas perdidas; o Ulisses contemporâneo deve ser um perito na distanciação do mito e no exílio da natureza, uma explorador da ausência e da deserção da vida verdadeira».
O Mediterrâneo pode pois tornar-se uma biografia, um interminável palimpsesto, um movimento que toma conta de nós e nos conduz para lugares incertos, aonde somos acompanhados por gaivotas solitárias, nas quais veremos notícias de uma esperança ou de desastres, com o Mediterrâneo estendendo-se a toda a volta cada vez mais branco.
Retomemos, neste sentido, Matvejevitch, em um dos momentos iniciais de Mediteranski Brevijar (ainda acompanhando a edição portuguesa da Quetzal, com tradução de Pedro Tamen):
«O lugar donde partimos importa menos que aquele aonde chegamos. Porque ora todos os mares parecem formar um só, sobretudo quando é longa a viagem, ora cada uma deles nos parece ser outro mar. Partamos, por exemplo, do Adriático. Daqui, o litoral setentrional, desde Málaga ao Bósforo, está mais próximo e é mais acessível. No Sul, de Haifa até Ceuta, tornam-se mais raras as baías e os portos. Percorri de ilha em ilha o mar Jónio e o mar Egeu, entre Cíclades e Espórades, em busca das suas semelhanças e das suas diferenças. Comparei a Sicília e a Córsega, Maiorca e Minorca. Não fiz escala em todas as costas. Demorei-me mais tempo nos lugares onde os rios desaguam. É difícil conhecer todo o Mediterrâneo

Fevereiro 11, 2009

Breviário Mediterrânico (3)

Predrag Matvejevitch atravessou o imenso mar interior, o imenso Oeste branco do Mediterrâneo de um lado a outro, desde as planícies croato-panónias às areias da Tunísia, da vertente dos Apeninos às gargantas do Montenegro, acima de Kotor, das Cíclades gregas ao arquipélago italiano das Lipari, do norte da Líbia ao litoral turco, passando pela Síria, de Marselha a Alexandria, de Atenas a Roma, do mediterrâneo católico ao mediterrâneo ortodoxo, da cultura da oliveira ao scirocco, entre o Fásis e as Colunas de Hércules. Desenhou curvas, contou as fronteiras, seguiu as cartas e os mapas, orientou-se pelo voo das gaivotas e pela espessura da espuma das ondas, subiu aos mosteiros, aos meteoros da Grécia, avançou para dentro das terras, viu como algumas são ainda mais marítimas do que outras que se encontram na orla, deteve-se nas capitanias, nos pontões abandonados, traçou os limites, as rotas, ouviu as fábulas, as superstições e as línguas antigas, regionais, costeiras, cheirou as redes e as tintas das embarcações, reparou nos molhes a esfumarem-se no azul e parou por fim, em oração, a contemplar o que viu. De tudo, e por tudo, ofereceu-nos esse itinerário indefinível, essa mistura de poema, romance e ensaio, de investigação histórica e tratado de filosofia, esse breviário barroco e infinito, a obra inesquecível, leve e solar como mar que a envolve, que é Mediteranski Brevijar.
Robert Bréchon, que assina o Posfácio, intitulado, Cenas de um Mundo Terráqueo, escreve: «Predrag Matvejevitch percorreu do mesmo passo o espaço e o tempo do Mediterrâneo. Viu com os seus próprios olhos grande parte das suas margens. Armazenou grande parte do saber que se foi acumulando desde que há quatro mil anos ali há homens que navegam, pescam, pensam, fazem a guerra, constroem cidades. O que caracteriza o Mediterrâneo é uma relação singular entre a terra, o mar e o homem». Claudio Magris, que introduz o livro, concretiza: «A cultura e a história mergulham directamente nas coisas, nas pedras, nas rugas dos rostos humanos, no gosto do vinho e do azeite, na cor das ondas. Matvejevitch tenta agarrar o Mediterrâneo, abandonar-se ao encanto desta palavra, mas também circunscrever rigorosamente o seu sentido, traçar limites e fronteiras. Segue as diversas rotas mediterrânicas, as do tráfico do âmbar e das peregrinações dos Judeus sefardins, da área da vinha e do curso dos rios; as fronteiras tornam-se então movediças e ondulantes: embora coerentes e concêntricas, desenham curvas ideais como as linhas isóbaras ou como as cristas das ondas».

Fevereiro 02, 2009

Breviário Mediterrânico (2)

Predrag Matvejevitch é croata, nasceu a cerca de 50 km da belíssima costa da Dalmácia, em Mostar, na Herzegovina, ao que não será de forma nenhuma alheio o pendor do Breviário Mediterrânico. «Em Mostar, diz ele, sopram os ventos do mar. Debaixo da velha ponte turca voam guinchos de uma espécie marinha; muitas vezes, pelo meio dia, o mistral». É professor em importantes universidades da Europa, eminente especialista em estudos românicos da Universidade de Zagreb, autor dessa brilhante obra de crítica historiográfica que é Pour une poétique de l´événement (1979), uma grande voz da Mitteleuropa e das planícies croato-panónias, um dos mais distintíssimos intelectuais europeus do nosso tempo e, afinal, inventor, como diz Bréchon, de uma nova arte de escrever, com este magistral Mediteranski Brevijar. Em criança, quando vivia em Sibenik, na costa dálmata, deixava-se fascinar pelos rios e pelas costas mediterrânicas e a si mesmo perguntava porque é que a faixa litoral é por vezes tão estreita e tão curta, e porque é que as gentes que vivem na costa têm outros hábitos e cantam outras canções. Matvejevitch é ainda autor de outros textos fundamentais, tais como Epistolaire de L´Autre Europe, de 1993 (entre nós: Epistulário Russo, também publicado pela Quetzal, em 1995, igualmente com tradução de Pedro Tamen e Introdução de Robert Bréchon), L´île Méditerranée/Photographies de Mimmo Jodice, que recomendo vivamente e pode ler-se como uma espécie de súmula de Breviário Mediterrânico, e esse não menos belíssimo périplo poético por uma Veneza latente e invisível, um outro autêntico breviário, no tom e no conteúdo, mais do que obrigatório para os amantes da cidade do Adriático, intitulado Druga Venecija (L´Autre Venise), que se pode encontrar também na Fayard. Mediteranski Brevijar é um livro como deviam ser muitos livros: cada palavra e frase pressentem uma infinitude de outras coisas, uma evocação, uma enumeração, uma análise e um itinerário exaustivo. Passa por nós como o vento que nos branqueia a cara à vista do arquipélago das Elafitas, em Dubrovnik, ou com os reflexos do brilho da água quente de Rovinj, na Ístria. Breviário Mediterrânico é uma viagem como deveria ser cada viagem: completa, com o seu «alegre saber», e gradualmente mais leve e parecida com um fantasma de si própria: na memória e na nostalgia. Como um imenso mediterrâneo branco. Predrag Matvejevitch começa assim: é o primeiro parágrafo, dá-nos logo aí o tom de todo o texto:
«Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba, tanto em terra como no mar. Para os Gregos, de Leste para Oeste, estendia-se do Fásis, no Cáucaso, até às Colunas de Hércules; consideravam implícita a sua fronteira natural a Norte e às vezes não se preocupavam com os seus limites a Sul. Os sábios da Antiguidade ensinavam que os confins do Mediterrâneo se situam onde a oliveira se detém. Nem sempre nem em toda a parte é assim: há lugares na costa que não são marítimos, ou que o são menos que outros, mais afastados dela. Há lugares em que o continente não se alia ao mar, em que se revela difícil a concordância entre eles. Noutros pontos, o carácter mediterrânico abrange mais vastas porções do continente, penetra-as mais com a sua influência. O Mediterâneo não é apenas uma geografia